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quarta-feira, 17 de setembro de 2014

Ameaçadas por milicianos, testemunhas de assassinatos se calam e até voltam atrás••.


RIO — A violência entrou na vida de Leonardo Baring Rodrigues e de Vicente de Souza Júnior, moradores da comunidade do Barbante, em Campo Grande, depois que ambos testemunharam uma chacina, em agosto de 2008. Após denunciarem que os assassinos pertenciam à maior milícia da Zona Oeste, eles foram inseridos no Programa de Proteção a Testemunhas. Leonardo não se adequou às regras, abandonou a segurança, e acabou sendo caçado e morto em julho de 2009. Na mesma época, o grupo invadiu a casa de Vicente e matou o avô, a mãe, um sobrinho e um tio do rapaz. Hoje, o jovem mora longe do Rio, com outro nome.

 Execução sumária faz parte do sistema de terror imposto pelos grupos paramilitares com o objetivo de eliminar provas e intimidar testemunhas e autoridades responsáveis pela apuração, pela denúncia e pelo julgamento de seus crimes. Dados da Secretaria estadual de Segurança revelam que pelo menos 20 testemunhas foram executadas nos últimos cinco anos. Um dos casos mais emblemáticos foi o assassinato de seis das sete testemunhas da Operação Capa Preta, que teve como objetivo prender 34 integrantes de uma milícia que atua em Duque de Caxias, na Baixada Fluminense. Depois que tiveram a prisão relaxada pela Justiça, os milicianos passaram a caçar seus delatores. A única testemunha sobrevivente, o delegado Alexandre Capote, está ameaçado de morte. Além dele, pelo menos outros dois delegados, dois promotores e dois juízes vivem com escoltas permanentes.

Como assassinatos fazem parte da demonstração de força desses grupos, em muitos casos os crimes são cometidos na frente de testemunhas, que passam viver sob ameaça. Titular do 1º Tribunal do Júri, o juiz Fábio Uchôa disse que é comum que testemunhas, amedrontadas, voltem atrás em seus depoimentos.
— Assim que o crime ocorre familiares e vizinhos da vítima, ainda indignados com a violência, apontam os assassinos e ajudam nas investigações. Mas, quando chegam ao Fórum, afirmam que nada viram, por causa de ameaças e perseguições que sofrem — disse o juiz, que aponta a falta de um eficaz programa de proteção à testemunha como um dos maiores obstáculos para a condenação de milicianos.
Em sua sentença sobre o caso da família de Vicente, o juiz Fábio Uchôa afirmou:

“O sequestro confirma que a quadrilha estava caçando e eliminando as testemunhas dos crimes com o intuito de evitar que elas comparecessem ao Tribunal do Júri, além de desestimular novos testemunhos, impedindo, assim, a apuração dos diversos crimes cometidos”.

DISTANTE DA FAMÍLIA

Presente em atos de violência praticados por milicianos contra comerciantes, uma testemunha se tornou alvo constante de ameaças de morte, que também são feitas aos seus parentes. Os autores seriam policiais militares. Mesmo assim, ela resiste a entregar seu negócio.

Grupos de paramilitares controlam o transporte de gás.

— Apesar da prisão de alguns dos chefes da quadrilha, os milicianos ainda controlam tudo por aqui. Minha vida mudou. Eu tive de me distanciar da minha família para tentar evitar que algo de ruim aconteça a ela — afirmou.